A onda cresce no exterior e agora chega ao Brasil com um arsenal de serviços e tecnologias para ajudar os insones
Nem todo mundo consegue descansar nas férias em tempos tão acelerados. Não raro, os dias de folga se tornam tão intensos que ganham ares de gincana, com visitas em série a pontos turísticos, museus, bares e restaurantes. Tudo, claro, registrado em selfies que disfarçam as olheiras. Eis que um grupo cada vez maior de pessoas esgotadas pela estressante rotina de trabalho e afazeres começa a trocar essa verdadeira maratona de lazer por boas horas de cama. O chamado turismo do sono, que ganha adeptos mundo afora, promete uma trégua para valer, longe das incessantes distrações que chegam no celular, em ambientes para lá de favoráveis ao repouso. A tendência, que já faz sucesso há algum tempo no exterior, acaba de desembarcar no Brasil, com um número crescente de hotéis oferecendo pacotes do tipo, com diárias a partir de 850 reais.
A novidade já pode ser encontrada em mais de vinte hotéis brasileiros, que, em comum, contam com janelas antirruído (revestidas de cortinas com blackout, claro) e camas com supercolchões. A partir daí, o cardápio de mimos para garantir sono profundo varia. No Wood, em Gramado, na Serra Gaúcha, o visitante esbarra com um menu de travesseiros da CiaDoSono para todos os gostos e anatomias, além de uma providencial caixa para trancar o telefone e só retirá-lo depois do despertar. Antes de fechar os olhos, os hóspedes são convidados a relaxar com uma playlist personalizada, tomar chá feito de um blend de ervas e massagear as mãos com óleo com essência de lavanda. Ao se pôr na horizontal, massageadores instalados sob as cobertas ajudam a soltar o corpo. A ideia é fazer com que a viagem seja bem diferente do convencional, explica Rafael Peccin, diretor do hotel. Já não tenho a mesma facilidade para dormir de quando eu era mais jovem, e esses cuidados são preciosos, conta a publicitária Rosiane Mendes, 41 anos, que por lá dormiu como se não houvesse amanhã.

Apesar de temporária e casual, a experiência não deixa de ser um alívio para a turma que passa noites em claro um contingente que se expande em meio ao estresse moderno. Três em cada dez brasileiros afirmam sofrer de insônia, segundo dados do Ministério da Saúde, um problema capaz de diretamente afetar a qualidade de vida e o próprio bem-estar. Ainda que pernoitar por algumas horas em um quarto de hotel sob medida não tenha efeito cumulativo, a experiência pode ajudar quem pena para pregar as pestanas a entrar em contato consigo mesmo. Só o fato de alguém entender que precisa dormir melhor já abre espaço a uma mudança mais duradoura de hábitos, avalia a neurologista Andrea Bacelar, da Academia Brasileira do Sono. Não levo mais o celular para a cama e, quando estou estressada, recorro às músicas para baixar a ansiedade, relata a engenheira química Priscila Perin, 40 anos, que se surpreendeu com os efeitos positivos que a hospedagem em um exemplar do circuito do sono trouxe para sua vida.
O segredo para o repouso dos justos, dizem os especialistas, é estabelecer uma rotina que começa bem antes do horário de dormir, capaz de ir desligando a mente. É um exercício que alguns hotéis internacionais, que figuram no panteão deste nicho do turismo, elevam a níveis ultra exclusivos. Na frenética Nova York, o Equinox reserva aos hóspedes camas com colchão feito à mão, à base de látex natural, algodão grego e carvão ativado, que fornece suporte às partes mais leves do corpo, como pescoço, braços e pernas. Com controle biométrico, ele permite que a temperatura fique mais fresca ao adormecer e mais quente ao despertar. Antes de o despertador tocar, a cama vibra suavemente e, pela manhã, dá um relatório completo sobre a qualidade daquela noite. Exercícios de relaxamento e banhos com contraste de temperatura e um mix de óleos (camomila, tangerina e pimenta-da-tasmânia) contribuem para abrandar a tensão.

Às margens do Pacífico, no México, o Grand Velas Riviera Nayarit se distingue pelo leque de serviços. Massagens, aromaterapia, sessões guiadas de relaxamento e tratamento sonoro, timbres de cristais e ruídos de gotas na água tudo está à disposição. Um dos agrados são as máscaras para cobrir os olhos, com texturas e cheiros distintos. Já no concorrido Lefay, nos fotogênicos Alpes italianos, a estadia inclui acompanhamento médico, massagens e até tratamento com crioterapia, técnica que utiliza temperaturas polares para tratar dores musculares. Claro que tamanho arsenal de mimos custa caro: um pacote de cinco noites ali não sai por menos de 2800 euros. Para quem pode pagar, a recompensa é um luxo ao qual, paradoxalmente, qualquer mortal tem direito: fechar os olhos e dormir bem.
Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017
Fonte: veja.abril.com.br