Pedido de abertura de capital mostra que a dona do Claude multiplicou as vendas, mas precisa financiar a expansão da infraestrutura
A Anthropic, criadora do assistente de inteligência artificial Claude, tornou público nesta segunda-feira (26) o pedido para abrir capital nos Estados Unidos.
A empresa pretende negociar ações na Nasdaq sob o código ANT, mas ainda não informou quantos papéis pretende vender nem a faixa de preço da oferta. A estreia na bolsa dependerá da aprovação do registro pela SEC, órgão regulador do mercado americano.
O documento apresenta aos investidores dois lados de um negócio em rápida expansão.
A receita avançou em ritmo acelerado, enquanto a empresa continua gastando para desenvolver modelos e garantir capacidade computacional.
Também revela um prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, cerca de R$ 452,3 bilhões, pela cotação de R$ 5,6048 usada nesta reportagem.
Prejuízo bilionário tem um componente contábil
O valor não corresponde, porém, ao dinheiro que a Anthropic gastou em suas operações no período.
Dos US$ 80,7 bilhões de prejuízo líquido, US$ 72,4 bilhões, aproximadamente R$ 405 bilhões, vieram da reavaliação de instrumentos financeiros que podem ser convertidos em ações, como notas conversíveis e acordos de investimento futuro.
Com a valorização da Anthropic, esses instrumentos passaram a valer mais nas contas da companhia. A mudança é registrada como despesa, embora não represente, por si só, um desembolso equivalente de caixa.
O prejuízo operacional, que mostra o resultado das atividades da empresa antes desses efeitos financeiros, foi de US$ 693 milhões, ou cerca de R$ 3,9 bilhões, no semestre.
A distinção ajuda a entender o tamanho do número, mas não elimina a questão sobre a rentabilidade. A Anthropic ainda registrou perda em suas operações e reconhece, no documento, que pode não alcançar ou manter lucro no futuro.
Receita cresceu quase 14 vezes
A receita chegou a US$ 16,3 bilhões (R$ 91 bilhões) entre janeiro e junho, ante US$ 1,2 bilhão no mesmo período de 2025. O avanço reflete a adoção dos produtos da empresa por companhias e desenvolvedores, além das assinaturas pagas do Claude.
Uma parte importante do negócio funciona por uso: clientes pagam conforme o volume de informações processadas pelos modelos.
Esse formato pode ampliar a receita quando aumenta a demanda, mas também torna o resultado mais sujeito a mudanças no consumo dos clientes.
A própria Anthropic alerta que empresas podem reduzir o uso ou cancelar contratos, inclusive por restrições de orçamento.
O desafio é transformar crescimento de vendas em lucro. Treinar e operar modelos de IA exige chips especializados, energia e grandes centros de dados.
Para atender à demanda, a Anthropic ampliou acordos de computação com Amazon, Google e Broadcom; o pacto com a Amazon prevê acesso a até cinco gigawatts de capacidade para treinar e operar o Claude.
A empresa também anunciou um plano de US$ 50 bilhões para infraestrutura de computação nos Estados Unidos.
O que o IPO pode testar
A abertura de capital permitirá que investidores avaliem a empresa com base em informações financeiras mais detalhadas e negociem suas ações em bolsa.
Para a Anthropic, a operação pode ampliar o acesso a recursos para sustentar a expansão. Como os termos da oferta ainda não foram definidos, não é possível calcular quanto dinheiro a companhia pretende captar.
O IPO também colocará à prova a disposição do mercado de financiar empresas de inteligência artificial que crescem depressa, mas ainda enfrentam custos elevados e incerteza sobre o retorno dos investimentos em computação.
O prospecto deve ajudar investidores a separar o crescimento da receita da capacidade de gerar caixa e lucro.
A empresa foi fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI e se apresenta como uma companhia de benefício público, com compromisso declarado de desenvolver inteligência artificial de forma responsável.
O documento levado à SEC também descreve riscos ligados à segurança e ao comportamento dos modelos, além da dependência de fornecedores de nuvem e infraestrutura.
Assim, a avaliação da Anthropic na bolsa dependerá tanto das vendas do Claude quanto da confiança de que a empresa conseguirá controlar custos, financiar sua expansão e administrar os riscos da tecnologia.
Fonte: veja.abril.com.br