Mais que coadjuvantes, vices ganham papel estratégico na corrida presidencial

Em uma corrida presidencial, a escolha do vice é a arte de preencher lacunas. Mais do que posições figurativas na chapa, esses nomes carregam missões estratégicas: acenar para novos eleitorados, blindar fragilidades políticas e costurar apoios regionais e institucionais. Especialistas ouvidos pela CBN apontam que, na disputa pelo Palácio do Planalto, os vices expõem com clareza a tática que cada candidatura adotou para conquistar o eleitor. A missão de um candidato a vice é muito mais do que conquistar votos, na opinião do marqueteiro Alberto Lage. 'Vice não agrega voto por si. Então a regra número um é não atrapalhar. Regra número 2, ajudar a formar coalizão partidária. Ao final, podem usar pra suavizar ou contrapor problemas de imagem do titular' Na busca pela reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, aposta na manutenção de uma fórmula que deu certo. Geraldo Alckmin, do PSB, tem um histórico de atuação na direita e foi do PSDB por mais de três décadas. Acabou escolhido para compor a chapa de Lula em 2022 como um aceno para a 'frente ampla', que reuniria forças de diferentes espectros políticos. Ao longo do mandato, o vice-presidente se tornou um pilar de estabilidade e estabeleceu um canal de diálogo com o setor produtivo. De acordo com o professor de ciência política do IESP-UERJ, João Feres, Alckmin garante previsibilidade ao mercado enquanto amplia o alcance da candidatura de Lula para além da esquerda. "O Alckmin é um exemplo quase de manual daquele vice que aponta pro centro. Ele funciona, na prática, pro Lula, como um antídoto ao antipetismo do eleitorado. É claro que ele não traz eleitor de esquerda, mas esse eleitor de esquerda o Lula já traz. Então ele acaba funcionando assim como aval de que o governo Lula não será um governo de ruptura, um governo radical, do ponto de vista da política econômica particularmente. Ou seja, funciona como um sinal, uma encarnação da moderação institucional." Na oposição, Flávio Bolsonaro, do PL, recorreu a um correligionário, o deputado federal Alfredo Gaspar. Mas ele não foi a primeira opção. Primeiro, Flávio tentou conquistar algum parceiro de chapa em outros partidos, como na federação PP-União Brasil, que acabou declarando neutralidade. Também cogitou-se uma mulher, como a senadora Tereza Cristina, para aplacar a maior rejeição ao bolsonarismo entre o eleitorado feminino. De qualquer forma, Gaspar atendeu a um duplo propósito. Tendo sido o relator da CPMI do INSS, o ex-promotor alagoano reforça o discurso de combate à corrupção e assume ainda a linha de frente para tentar conter a vantagem de Lula na Região Nordeste. Mas a estratégia tem efeito limitado, de acordo com o professor João Feres: 'Enquanto o Alckmin significa para a candidatura de Lula a presidência essa ponte ao centro, essa sinalização de moderação ideológica, o Alfredo Gaspar, em relação ao Flávio Bolsonaro, significa não um apelo ideológico, porque é mais do mesmo nesse sentido, mas uma pessoa que tem experiência partidária e experiência de governo. Agora, é limitada [essa estratégia], então eu acho que o Alckmin adiciona mais a candidatura Lula do que o Alfredo Gaspar na candidatura de Flávio Bolsonaro.' Nos últimos dias, a principal novidade na disputa foi Augusto Cury. Estreante em eleições, o escritor atingiu 10% das intenções de voto e o terceiro lugar na última pesquisa Quaest, divulgada na quarta-feira. O candidato do Avante buscou um contraponto para a inexperiência em cargos públicos: o ex-deputado federal mineiro Júlio Delgado. Na Câmara dos Deputados por seis mandatos, Delgado foi relator do processo de cassação do então deputado petista José Dirceu, após o escândalo do Mensalão, e foi integrante da CPI dos Sanguessugas. Com Delgado, o candidato também acena para Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral e tradicional fiel da balança em pleitos nacionais. Cury já anunciou, inclusive, que confiará ao vice a condução das negociações de grandes reformas. O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro explica que o candidato do Avante agregou à chapa o trânsito político que lhe faltava: "O Augusto Cury, justamente por ser novidade e por não ter envolvimento nenhum com política, ele vai trazer uma pessoa que tenha conhecimento da arte e da política. O Fernando Henrique [Cardoso] fala naquele livro dele, 'a arte da Política é a arte de negociar, arte de barganhar, de fazer acordos...' Na visão do Augusto Cury, ele tem ali uma válvula de segurança e, caso se eleja, teria já um articulador capaz de colocá-lo dentro desse universo" Diferentemente de outras eleições, os principais candidatos à presidência, a exceção de Lula, tiveram dificuldade de encontrar vices de outros partidos, formando as chamadas chapas 'puro-sangue'. Nenhum dos seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas escolheu uma mulher como vice. Ronaldo Caiado, do PSD, fechou com Gilberto Kassab, presidente nacional do partido. Romeu Zema, do Novo, escolheu o senador Eduardo Girão. E Renan Santos, do Miss

Mais que coadjuvantes, vices ganham papel estratégico na corrida presidencial

Em uma corrida presidencial, a escolha do vice é a arte de preencher lacunas. Mais do que posições figurativas na chapa, esses nomes carregam missões estratégicas: acenar para novos eleitorados, blindar fragilidades políticas e costurar apoios regionais e institucionais. Especialistas ouvidos pela CBN apontam que, na disputa pelo Palácio do Planalto, os vices expõem com clareza a tática que cada candidatura adotou para conquistar o eleitor. A missão de um candidato a vice é muito mais do que conquistar votos, na opinião do marqueteiro Alberto Lage. 'Vice não agrega voto por si. Então a regra número um é não atrapalhar. Regra número 2, ajudar a formar coalizão partidária. Ao final, podem usar pra suavizar ou contrapor problemas de imagem do titular' Na busca pela reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, aposta na manutenção de uma fórmula que deu certo. Geraldo Alckmin, do PSB, tem um histórico de atuação na direita e foi do PSDB por mais de três décadas. Acabou escolhido para compor a chapa de Lula em 2022 como um aceno para a 'frente ampla', que reuniria forças de diferentes espectros políticos. Ao longo do mandato, o vice-presidente se tornou um pilar de estabilidade e estabeleceu um canal de diálogo com o setor produtivo. De acordo com o professor de ciência política do IESP-UERJ, João Feres, Alckmin garante previsibilidade ao mercado enquanto amplia o alcance da candidatura de Lula para além da esquerda. "O Alckmin é um exemplo quase de manual daquele vice que aponta pro centro. Ele funciona, na prática, pro Lula, como um antídoto ao antipetismo do eleitorado. É claro que ele não traz eleitor de esquerda, mas esse eleitor de esquerda o Lula já traz. Então ele acaba funcionando assim como aval de que o governo Lula não será um governo de ruptura, um governo radical, do ponto de vista da política econômica particularmente. Ou seja, funciona como um sinal, uma encarnação da moderação institucional." Na oposição, Flávio Bolsonaro, do PL, recorreu a um correligionário, o deputado federal Alfredo Gaspar. Mas ele não foi a primeira opção. Primeiro, Flávio tentou conquistar algum parceiro de chapa em outros partidos, como na federação PP-União Brasil, que acabou declarando neutralidade. Também cogitou-se uma mulher, como a senadora Tereza Cristina, para aplacar a maior rejeição ao bolsonarismo entre o eleitorado feminino. De qualquer forma, Gaspar atendeu a um duplo propósito. Tendo sido o relator da CPMI do INSS, o ex-promotor alagoano reforça o discurso de combate à corrupção e assume ainda a linha de frente para tentar conter a vantagem de Lula na Região Nordeste. Mas a estratégia tem efeito limitado, de acordo com o professor João Feres: 'Enquanto o Alckmin significa para a candidatura de Lula a presidência essa ponte ao centro, essa sinalização de moderação ideológica, o Alfredo Gaspar, em relação ao Flávio Bolsonaro, significa não um apelo ideológico, porque é mais do mesmo nesse sentido, mas uma pessoa que tem experiência partidária e experiência de governo. Agora, é limitada [essa estratégia], então eu acho que o Alckmin adiciona mais a candidatura Lula do que o Alfredo Gaspar na candidatura de Flávio Bolsonaro.' Nos últimos dias, a principal novidade na disputa foi Augusto Cury. Estreante em eleições, o escritor atingiu 10% das intenções de voto e o terceiro lugar na última pesquisa Quaest, divulgada na quarta-feira. O candidato do Avante buscou um contraponto para a inexperiência em cargos públicos: o ex-deputado federal mineiro Júlio Delgado. Na Câmara dos Deputados por seis mandatos, Delgado foi relator do processo de cassação do então deputado petista José Dirceu, após o escândalo do Mensalão, e foi integrante da CPI dos Sanguessugas. Com Delgado, o candidato também acena para Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral e tradicional fiel da balança em pleitos nacionais. Cury já anunciou, inclusive, que confiará ao vice a condução das negociações de grandes reformas. O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro explica que o candidato do Avante agregou à chapa o trânsito político que lhe faltava: "O Augusto Cury, justamente por ser novidade e por não ter envolvimento nenhum com política, ele vai trazer uma pessoa que tenha conhecimento da arte e da política. O Fernando Henrique [Cardoso] fala naquele livro dele, 'a arte da Política é a arte de negociar, arte de barganhar, de fazer acordos...' Na visão do Augusto Cury, ele tem ali uma válvula de segurança e, caso se eleja, teria já um articulador capaz de colocá-lo dentro desse universo" Diferentemente de outras eleições, os principais candidatos à presidência, a exceção de Lula, tiveram dificuldade de encontrar vices de outros partidos, formando as chamadas chapas 'puro-sangue'. Nenhum dos seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas escolheu uma mulher como vice. Ronaldo Caiado, do PSD, fechou com Gilberto Kassab, presidente nacional do partido. Romeu Zema, do Novo, escolheu o senador Eduardo Girão. E Renan Santos, do Missão, está com o tenente-coronel Aroldo Medina, também da mesma legenda.