Livro de Margaret Atwood já virou série e é referencial para diversas reflexões políticas instigadas pelas eleições federais
Nessa semana, O Conto da Aia, livro de lançado em março de 1985 e já adaptado para a televisão, retornou à lista de mais vendidos de VEJA o que não ocorreu por acaso. Nas redes sociais, a obra literária é destrinchada e utilizada como referencial para múltiplas reflexões políticas, em especial ao que diz respeito à ascensão da extrema direita e do pensamento teocrático, vistos como ameaças à democracia e aos direitos das mulheres.
Em meio aos paralelos traçados entre ficção e realidade, estão episódios recentes envolvendo o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) e seus aliados. Em julho, o influenciador Paulo Figueiredo, por exemplo, atacou jornalistas durante uma transmissão ao vivo e ofendeu profissionais da imprensa com termos de baixo calão referentes a profissionais do sexo. Já a deputada estadual Eduarda Campopiano (PL) eleita por quase 2 milhões de votos é frequentemente comparada à personagem Serena Joy devido ao apoio à causa antifeminista.
É nesse contexto que a obra de Atwood volta ao debate público. No romance distópico, a República de Gilead surge após a ruptura da ordem democrática nos Estados Unidos e estabelece um regime teocrático e totalitário, no qual as mulheres perdem direitos fundamentais e passam a ter suas vidas determinadas por funções sociais impostas pelo Estado.
A protagonista, Offred, é uma aia — categoria reservada às mulheres férteis que são obrigadas a gerar filhos para famílias da elite. Sob vigilância constante, ela não tem autonomia sobre o próprio corpo. Outras mulheres que não se encaixam nas regras do regime, como feministas e homossexuais, são classificadas como inimigas da sociedade e condenadas a trabalho forçado em áreas contaminadas por radiação.
A repressão em Gilead também alcança a imprensa, a educação e as liberdades individuais. Ao imaginar uma sociedade em que a religião é usada para legitimar a concentração de poder e o controle dos corpos femininos, Atwood constrói uma narrativa sobre como direitos podem ser eliminados sob um discurso de ordem e moralidade.
As comparações feitas nas redes sociais não significam que o Brasil esteja prestes a reproduzir a sociedade fictícia do livro, mas refletem preocupações de leitores e criadores de conteúdo com declarações e episódios recentes da política contemporânea, especialmente envolvendo ameaças a democracia, desqualificação de jornalistas e manifestações misóginas.
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Fonte: veja.abril.com.br