O diagnóstico de Leão XIV evidencia um fenômeno que intriga a medicina
Sorrindo da janela do Palácio Apostólico do Vaticano, o papa Leão XIV agradeceu, no último domingo, pelas orações por sua recuperação. O sumo pontífice, de 71 anos, recebeu alta na manhã anterior do Hospital Gemelli, em Roma, quatro dias depois do procedimento cirúrgico que removeu o lobo inferior de seu pulmão direito, onde foi detectado um nódulo canceroso. Praticante regular de tênis e natação, Robert Francis Prevost nunca fumou. Essa experiência me fez vivenciar de modo particular a proximidade com todos aqueles que atravessam a doença, afirmou. De fato, Leão XIV não está sozinho. Embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco para o problema, cerca de 20% dos casos de câncer de pulmão já ocorrem em pessoas que nunca puseram um cigarro na boca um número que vem crescendo sobretudo entre as mulheres. O fenômeno preocupa e intriga a ciência, que está atrás de respostas enquanto aprimora o tratamento.

Entre as hipóteses que se somam para explicar a tendência apontada pelos estudos aparecem a poluição do ar, o fumo passivo, a predisposição genética e até o contato com o radônio, um gás radioativo presente em materiais de construção e no solo de algumas áreas do país Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco e Paraná são alguns dos estados onde ele é encontrado. Nos pulmões, o câncer não faz barulho. Sintomas como tosse com sangue e falta de ar só aparecem quando a doença se disseminou. Não por acaso, oito em cada dez pacientes acabam descobrindo o quadro em estágio avançado, quando as chances de cura são menores. Hoje, para o diagnóstico precoce, médicos recorrem à tomografia computadorizada de baixa dose, recomendada a indivíduos de alto risco para o tumor: homens e mulheres de 50 a 80 anos com histórico de tabagismo. Entre pessoas que não fazem parte desse público, não é incomum que nódulos pulmonares sejam identificados por acaso, em exames realizados por outros motivos. O maior acesso aos exames de imagem contribuiu para a detecção de tumores que anteriormente poderiam permanecer desconhecidos por anos, diz o oncologista Luiz Henrique Araújo, pesquisador do setor de Oncologia Clínica do Inca. Nem todo nódulo é sinônimo de câncer, mas, a depender de suas características, merece ser monitorado ou extirpado.

No caso do papa, a pista sobre a doença surgiu de forma acidental em um check-up. Uma mancha no tórax acendeu o alerta. Ainda bem! Se detectado cedo, o câncer de pulmão pode ser removido completamente com uma cirurgia, como aconteceu com o pontífice. À medida que o problema evolui e se espalha, contudo, a operação pode ser arriscada, e aí o plano de ação envolve tratamentos como a quimioterapia. Nos últimos anos, uma nova classe de medicamentos despontou, particularmente para tumores associados a mutações genéticas comuns em não fumantes. Mais eficaz que a químio, a terapia-alvo ataca alterações moleculares específicas do câncer, ampliando a expectativa e a qualidade de vida.

A psicóloga Shirlei Meira de Miranda, de 55 anos, é exemplo desse avanço tanto do contingente afetado pela doença como do tratamento. Foi diagnosticada com câncer de pulmão em estágio avançado há dois anos e hoje toma uma medicação destinada a pacientes com uma mutação no gene EGFR. Minha irmã morreu da doença há trinta anos, seis meses depois de receber o diagnóstico, quando esses novos tratamentos não existiam, conta. Ter acesso a isso é um privilégio. A mutação no gene EGFR não é considerada hereditária, e estudos recentes indicam que a exposição à poluição, capaz de levar a mutações no DNA, pode contribuir para o crescimento dos casos, especialmente entre as mulheres. Uma análise recente da agência especializada em câncer da OMS descobriu que tais alterações genéticas estão presentes em 50% dos tumores em mulheres asiáticas não fumantes e em quase 20% entre mulheres ocidentais que nunca fumaram. Entre os homens, a proporção varia, em geral, de 10% a 20%.
O dilema é que, no momento, as diretrizes para rastreamento da doença deixam de fora o público não tabagista. As pesquisas mostram que precisamos expandir os exames para populações como mulheres que não fumam e vivem em cidades poluídas, diz o oncologista Fernando Moura, do Einstein Hospital Israelita. Embora não exista um consenso oficial, pessoas com história na família ou com sintomas respiratórios persistentes devem procurar um especialista para avaliar a necessidade de uma tomografia do tórax. O caso do papa nos serve de alerta para mostrar que a doença cresce entre não fumantes e não dá sinais, ressalta o cirurgião torácico Marcos Samano, da Faculdade de Medicina da USP. Ele felizmente ficou bem. Suas preces se encontram, agora, com as de todos que torcem para que a medicina possa replicar esse desfecho o maior número de vezes.
Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018
Fonte: veja.abril.com.br