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Milton Hatoum sobre Prêmio Nobel de Literatura: Não me interessa

Sucesso de crítica e de público, autor se vê às voltas agora com a gravação de um documentário sobre sua trajetória

Recentemente, Milton Hatoum aprendeu a andar por aí com uma segunda sombra: trata-se do produtor Guilherme Coelho, da Matizar Filmes, que, munido de uma câmera, segue o escritor de 73 anos desde sua posse na Academia Brasileira de Letras, em abril, quando se tornou o primeiro amazonense a ocupar uma cadeira entre os imortais. As gravações serão transformadas no documentário Um Escritor entre Dois Mundos, dirigido por Marcelo Gomes, com estreia prevista para 2027. O título remete às duas raízes geográficas do autor: o Amazonas e o Líbano, país de onde seus avós de ambos os lados vieram. No começo, não me animei com a ideia do filme, porque sou tímido, disse o manauara a VEJA, com sua voz grave de radialista. A timidez é um traço que ele se viu obrigado a lutar contra: primeiro, ao se tornar professor de francês, em 1984, na Universidade Federal do Amazonas; depois, pela fama crescente de escritor.

Com meio milhão de cópias vendidas, o autor publicou, ao longo de quatro décadas, apenas seis romances, entre eles os aclamados Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos ambos adaptados para o cinema e a TV, respectivamente , além de alguns contos, crônicas e poemas e da novela Órfãos do Eldorado. Talvez essa lentidão guarde uma relação atávica com o tempo e com o ritmo da Amazônia, explicou em seu discurso de posse na ABL. De fato, o ritmo dele é de outra época. Sou o último dinossauro, conta ele, que ainda escreve à mão. Isso não o impediu de conquistar projeção internacional. Sua obra já foi traduzida para dezessete idiomas e publicada em vinte países alcance que fez dele um dos poucos brasileiros a figurar entre as apostas para o Nobel de Literatura.

Dois homens, um de óculos e cabelo branco sorrindo, e outro de bandana e cabelo escuro, vestem casacos verde-escuros com bordados dourados, em frente a uma parede branca com quadros
IMORTAIS -Com Ailton Krenak: aumento de diversidade na ABL –./Divulgação

O prêmio, ainda inédito por aqui, não apresenta indicados nem finalistas, mas as bolsas de apostas pelo mundo costumam listar nomes dignos da honraria. Na semana passada, a mais recente laureada foi a canadense Anne Carson. Quando ouviu que fora cotado ao prêmio, Hatoum deu, segundo ele, uma sonora gargalhada. O Nobel não me interessa, afirma. O prêmio para um brasileiro já era do Carlos Drummond de Andrade, da Clarice Lispector. A Academia Sueca (responsável pelo Nobel) não conhece a nossa literatura. Seu sonho está longe de Estocolmo. Quero ter jovens leitores aqui, diz.

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Pessoas dançando e tocando música em um barco, com uma mulher de vestido rodopiando e um homem tocando flauta, em preto e branco
ORIGEM -Filme Retrato de um Certo Oriente: a chegada da imigração libanesa ao Amazonas na década de 1950 –O2 Play/Divulgação

O desejo de apresentar o Brasil aos brasileiros ajuda a explicar um projeto literário construído na contramão dos estereótipos. Quando começou a escrever Relato de um Certo Oriente, de 1989, temia cair na armadilha do exotismo ao aproximar o universo árabe da Amazônia. Preferiu concentrar-se nos conflitos domésticos. A verdade na literatura é a das relações humanas, defende. Desde então, sua ficção relaciona a intimidade das famílias às transformações urbanas, históricas e políticas do país. Essa combinação ganha contornos dolorosos em Dança de Enganos (2025), romance mais recente, que encerra a trilogia O Lugar Mais Sombrio, ambientada na ditadura militar. Estudante na época, Hatoum foi detido duas vezes e partiu para um autoexílio na Europa. Por isso, observa com preocupação a nostalgia que parte da sociedade ainda manifesta pelo regime. O esquecimento é uma estratégia de poder. É uma política deliberada para não refletirmos sobre o passado, logo, não entendermos o presente, critica. A preocupação se estende ao cenário eleitoral atual: A direita foi sequestrada pelo extremismo. Isso é muito preocupante.

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cena da minissérie Dois Irmãos
FAMÍLIA -Minissérie Dois Irmãos, da Globo: conflitos culturais representados pela rivalidade dentro de casa./TV Globo

Se a ditadura lhe impôs o afastamento do Brasil, a distância foi decisiva para sua literatura. Na Europa, usou a saudade como combustível criativo. As lembranças do avô libanês, das mulheres indígenas que frequentavam sua casa e das andanças pela antiga cidade flutuante de Manaus alimentaram seu primeiro romance. A literatura é isso: uma recuperação da memória através da imaginação e do alumbramento, define. Hatoum, em ritmo lento de produção e com uma prosa instigante, segue de forma brilhante essa receita.

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Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017

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Fonte: veja.abril.com.br

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