Campanha petista reavalia estratégia para o segundo turno, focando na mobilização seletiva de eleitores para combater abstenções
À primeira vista, as mais de 33 milhões de abstenções registradas em 4 de outubro deixaram a campanha de Lula tentada a amparar boa parte de sua estratégia para o segundo turno em um cálculo sem lá muita fundamentação estatística. Dada a profusão de ausentes das urnas, bastaria, por esse pensamento, persuadir uma fração dos que não foram votar no primeiro turno a sair de casa agora para ampliar a votação no segundo turno. Um documento de circulação restrita a que VEJA teve acesso até aponta uma meta em discussão no QG petista: se 40% dos que se abstiveram na rodada inicial votarem em Lula em 25 de outubro, a eleição está ganha.
Seria um verdadeiro milagre de conversão de votos, já que os tais 40% correspondem a mais de 13 milhões de eleitores, uma vez e meia a votação conquistada por Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) juntos no primeiro turno.
Fazer contas criativas com o número de abstenções não é tão simples assim. Há cadastros desatualizados, inclusive com mortos, além de pessoas hospitalizadas e outras sem condições físicas ou financeiras de se deslocar para sua seção eleitoral. O cômputo ainda considera quem não é obrigado a votar, que são pessoas com menos de dezoito anos, mais de setenta anos e os analfabetos.
É por isso que, ao mesmo tempo em que discute uma meta quase impossível de mobilização de eleitores que deixaram de votar na etapa inaugural da disputa, o PT também orienta aliados políticos e militantes a só estimular o comparecimento onde ele rende votos para o candidato à reeleição.
A diretriz é replicada sem muito mistério: no Nordeste, sim; fora dele, só onde Lula lidera. Na região em que o presidente ficou à frente em todos os estados e quase todos os municípios, de acordo com o documento interno, cada eleitor a mais que vota ali tende a favorecê-lo.
Segundo o manual do PT, uma força-tarefa contra a abstenção deve ter carreatas, panfletagem e abordagens corpo a corpo, em mobilizações lideradas município a município por prefeitos, deputados e lideranças aliadas, sempre com o cuidado de não desrespeitar a legislação eleitoral, que proíbe partidos, coligações ou qualquer pessoa de oferecer transporte em troca de votos.
Por outro lado, estimular o comparecimento de cidades inteiras no Norte, no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste dá, no conjunto, mais votos a Flávio. A campanha petista disponibiliza internamente um mapa da estratégia, que apresenta os índices de votação em cada zona eleitoral e serve para os apoiadores de Lula saberem onde concentrar os esforços de combate à abstenção.
Fonte: veja.abril.com.br