Levantamento exclusivo do BZCP mostra avanço da inteligência artificial nas negociações e maior preocupação dos compradores com riscos tecnológicos
A inteligência artificial ganhou espaço nas negociações de fusões e aquisições de empresas no Brasil. Um levantamento do escritório BZCP Advogados, obtido com exclusividade pelo Radar Econômico, mostra que a tecnologia esteve presente em metade das 36 transações assinadas em 2025 e analisadas pela banca. Em 2024, essa participação era de 23%.
O avanço não significa necessariamente que empresas especializadas em IA estejam sendo compradas com maior frequência. Segundo o estudo, a mudança reflete sobretudo a incorporação da tecnologia aos produtos e serviços de companhias de diferentes setores. Isso vem alterando a maneira como os compradores avaliam os negócios, especialmente nas etapas de investigação dos ativos, contratos e riscos envolvidos nas operações.
Entre as preocupações que passaram a ganhar importância estão a dependência de modelos de inteligência artificial desenvolvidos por terceiros, a origem dos dados utilizados no treinamento dos sistemas e as obrigações contratuais assumidas com fornecedores de tecnologia. São questões que podem influenciar tanto a avaliação financeira das empresas quanto a distribuição de responsabilidades entre compradores e vendedores.
O estudo também identificou mudanças relevantes na estrutura financeira das transações. Todas as 36 operações analisadas envolveram pagamento em dinheiro no fechamento. As aquisições remuneradas exclusivamente com ações, que chegaram a representar 28% da amostra do escritório em 2022 e 2023, desapareceram em 2025.
Outro movimento foi o aumento da retenção de parte do preço como garantia para eventuais passivos. Esse mecanismo apareceu em 53% das operações de 2025, ante 27% em 2024. Em um ambiente de juros elevados, a negociação passou a envolver também quem ficará com os rendimentos dos recursos retidos até a conclusão das obrigações contratuais.
O levantamento revela ainda que 44% das transações de 2025 adotaram mecanismos de pagamento adicional vinculados ao desempenho futuro das empresas adquiridas, conhecidos como earn-out. Todas essas operações tiveram compradores estratégicos, enquanto os fundos de private equity demonstraram preferência por estruturas que mantêm os antigos controladores como acionistas.
A análise considera negócios assessorados pelo próprio BZCP, não constituindo uma amostra estatisticamente representativa de todo o mercado brasileiro. Ainda assim, oferece um retrato das mudanças contratuais que acompanham o avanço da inteligência artificial e a maior cautela nas negociações empresariais.
Fonte: veja.abril.com.br