Empresas têm dois meses para rever escalas, calcular custos e negociar mudanças com sindicatos
O comércio tem pouco tempo para definir como vai reorganizar suas equipes diante da redução da jornada semanal de trabalho. Com a mudança nas regras trabalhistas, as empresas precisarão rever escalas, avaliar a necessidade de novas contratações e renegociar condições com sindicatos para manter as operações sem comprometer os resultados financeiros. A decisão será especialmente delicada para estabelecimentos que funcionam aos fins de semana, sobretudo porque o sábado costuma concentrar uma parcela importante do faturamento no varejo.
Promulgada pelo Congresso Nacional no último dia 16, a Emenda Constitucional nº 141 prevê a redução progressiva do limite de trabalho semanal, sem corte salarial, e garante dois dias de descanso remunerado. O primeiro estágio, previsto para começar 60 dias após a publicação da emenda, estabelece um teto de 42 horas semanais. Depois de mais 12 meses, o limite passará a ser de 40 horas.
No varejo, a adaptação exigirá atenção especial. Farmácias, supermercados, lojas e outros estabelecimentos que atendem ao público durante seis ou sete dias da semana não conseguem simplesmente transferir todos os empregados para uma jornada concentrada de segunda a sexta-feira sem rever a organização do atendimento.
Empresas estudam como substituir a escala 6×1 pelo modelo 5×2, no qual o profissional trabalha cinco dias e descansa dois. Segundo Sérgio Santos, CEO da consultoria Vivasz e especialista em operações de varejo, empresas de diferentes portes já vinham se antecipando à mudança. A transição, contudo, depende de ajustes que variam conforme a atividade e as regras coletivas aplicáveis a cada negócio.
O principal cuidado é preservar o número de trabalhadores nos períodos em que o estabelecimento costuma receber mais clientes. No comércio, o sábado frequentemente concentra uma parcela importante das vendas, o que torna necessário distribuir os descansos ao longo da semana sem deixar a operação descoberta nos horários de maior movimento. “Todo mundo está tentando encaixar as folgas nos demais dias”, diz o consultor.
A reorganização também pode envolver mudanças na distribuição das tarefas e dos horários de entrada dos funcionários. Em vez de manter o mesmo número de pessoas trabalhando durante toda a jornada de funcionamento, a empresa pode concentrar parte da equipe nos momentos de maior demanda e escalonar a chegada dos demais trabalhadores ao longo do dia.
Outra frente de análise é a rentabilidade de cada período de funcionamento. Manter as portas abertas por mais tempo não significa necessariamente obter um resultado financeiro melhor: a receita adicional precisa compensar os custos necessários para operar. Por isso, os empresários terão de avaliar se vale a pena manter o atendimento em horários de pouco movimento ou até mesmo em determinados dias da semana. As empresas vão ter que ser muito mais criteriosas na hora de escolher em quais dias e horários elas vão funcionar. As varejistas estão otimizando a alocação de pessoas.
A contratação de trabalhadores adicionais é outra possibilidade, especialmente para empresas que precisam manter o funcionamento contínuo. O trabalho intermitente, modalidade prevista na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) desde 2017, pode ajudar a atender oscilações de demanda, desde que sejam respeitadas as condições legais. A automação de tarefas, com recursos como caixas de autoatendimento, sistemas de gestão de estoque e ferramentas para organizar as escalas, também pode reduzir o tempo dedicado a determinadas atividades.
Para Darwin Grein, CEO da consultoria Juntxs e especialista em gestão de equipes, o fim da escala 6×1 exige uma revisão mais ampla da maneira como as empresas organizam o trabalho, para além da simples redistribuição dos horários dos funcionários. A redução da jornada exige uma revisão do desenho organizacional: como as atividades são estruturadas, quais processos geram valor, onde existem gargalos e como as equipes são dimensionadas”, diz o consultor. “Organizações que dependem exclusivamente da ampliação do tempo de presença para sustentar seus resultados tendem a enfrentar mais dificuldades nesse processo”.
O tamanho da empresa também pode influenciar a capacidade de resposta. Redes com várias unidades e equipes maiores tendem a ter mais possibilidades de redistribuir funcionários e identificar períodos ociosos. Já pequenos estabelecimentos, que operam com poucos trabalhadores, podem enfrentar mais dificuldades para cobrir as horas que deixarão de estar disponíveis. Nesses casos, o próprio proprietário pode precisar assumir parte das tarefas antes executadas por seus funcionários.
Em determinadas atividades, a jornada de 12 horas de trabalho seguidas por 36 horas de descanso, conhecida como escala 12×36, também aparece como uma alternativa a ser avaliada. O regime pode facilitar a adaptação durante a primeira etapa da transição, quando o limite semanal será de 42 horas. A adoção do modelo deve observar as condições previstas nas regras trabalhistas e nos instrumentos coletivos aplicáveis.
Fonte: veja.abril.com.br