Sem propostas consistentes para o país e investigado por suspeitas diversas, senador se beneficiou da rejeição ao PT
Tratado com desdém e ceticismo quando anunciou a sua candidatura à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro chega ao dia final da campanha com chances reais de ganhar a eleição, depois de vencer o primeiro turno com uma vantagem de 2,2 milhões de votos sobre o presidente Lula.
Filho mais velho de Jair Bolsonaro, o Zero Um se beneficiou na disputa de uma série de fatores, como o fato de a reprovação ao governo ter superado a aprovação durante o terceiro mandato de Lula. Ele explorou o tempo todo a insatisfação do eleitorado e a demanda por mudança, que se tornaram obstáculos à reeleição do presidente.
O senador também acertou na escolha dos temas da campanha. Ele deixou de lado a pauta de costumes, que foi tão marcante quando seu pai fracassou na eleição de 2022, e preferiu tratar dos principais problemas do pais apontados pela população. Entre eles, a criminalidade e o alto custo de vida.
Flávio Bolsonaro não apresentou propostas consistentes sobre esses assuntos, mas conseguiu fustigar Lula com eles. O roubo de celulares e o carrinho de supermercado vazio, imagens de forte apelo popular, viraram figurinha carimbada na sua propaganda.
Entre os motores da arrancada eleitoral de Flávio Bolsonaro, poucos foram tão potentes quanto o antipetismo, que serviu de escudo de proteção para o senador. A rejeição ao PT foi usada como pretexto para amenizar as inconsistências e contradições do candidato, que fala em ajuste fiscal enquanto promete que não cortará investimentos e programas sociais.
O antipetismo também levou setores da sociedade a fazer vista grossa a passagens controversas da biografia do primogênito de Bolsonaro, inclusive as suspeitas de corrupção, que ironicamente fomentaram o sentimento de repúdio a Lula e ao partido do presidente, protagonistas dos escândalos do mensalão e do petrolão.
Como se sabe, o senador foi acusado pelo Ministério Público de praticar rachadinha em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro, mas uma decisão judicial impediu que o caso fosse julgado. Flávio Bolsonaro também é alvo de investigação em dois episódios rumorosos.
O Supremo Tribunal Federal Federal (STF) apura se houve crime no pedido de 134 milhões de reais que ele fez a Daniel Vorcaro, ex-dono do Master. O Zero Um alega que o dinheiro foi destinado à produção de uma cinebiografia sobre o pai dele. Há meses, ele prometeu prestar contas sobre a aplicação dos recursos, mas isso nunca foi feito.
Em outra ponta, a Polícia Federal enviou ao STF um pedido de inquérito contra o senador por suspeita de lavagem de dinheiro num enredo que envolve o advogado Willer Tomaz, um amigo de Flávio Bolsonaro que também é investigado por suposta participação no escândalo do INSS.
No debate da TV Bandeirantes, Lula fez um desafio a Flávio Bolsonaro: ambos abrirem seus sigilos bancários e telefônicos, como forma de passar a limpo quem é corrupto. O petista jogou para a plateia numa tentativa de reduzir os danos de imagem que sofre em razão do tema corrupção. O desafio até alimentou postagens nas redes sociais durante alguns dias, mas não trouxe prejuízos para o oposicionista.
Uma parcela considerável do eleitorado decidiu que votará no senador independentemente da fragilidade de suas propostas, de sua carreira política sem marcas e da gravidade das suspeitas que pairam sobre ele. Afinal de contas, como sempre repete Flávio Bolsonaro, a prioridade é tirar o PT do poder.
Fonte: veja.abril.com.br