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Ana Maria Braga: Vivo de aplausos

A apresentadora diz que não abre mão de sexo, revela que fez um aborto e garante que a aposentadoria não está nos planos

Depois de quase cinco décadas de TV, vasta estrada que lhe rendeu menção até no Guinness Book, Ana Maria Braga, 77 anos, esclarece que por nada quer se aposentar. E prova: ela acaba de estrear a segunda temporada de Chef de Alto Nível, reality gastronômico de curta temporada. Tamanha exposição lhe cobrou um preço raramente ela sai de casa para executar tarefas triviais, dia a dia que agora cabe ao atual marido, o quinto em sua biografia, Fábio Arruda, ex-diretor na Globo, com quem se casou em 2025. Do tipo que não se prende a tabus, a apresentadora não se importa com a diferença de idade entre eles, 21 anos, assunto que vira e mexe alimenta o ti-ti-ti nas redes, nem se furta a falar de sexo na terceira idade, da ideia de se relacionar com mulheres ou do câncer que já a acometeu cinco vezes, agora em remissão total. Em meio ao atribulado batente às 4h da manhã ela já está de pé , Ana Maria recebeu VEJA no camarim repleto de fotos na sede da Globo, em São Paulo, após mais um dia no comando do matinal Mais Você.

Com meio século de estrada na TV, quais mudanças relevantes observa ao longo do tempo? Por incrível que pareça, não acho que houve uma mudança substancial na essência da televisão. Seguimos conectados aos temas que mexem com as pessoas, e os problemas continuam mais ou menos iguais. Em geral, os brasileiros ainda são resistentes a aceitar o outro como ele é. E não é só no interior mais conservador, não, mas também nas capitais há um preconceito nublado, apesar de um discurso de fachada para tudo soar moderno. Quem não gosta simplesmente desliga a TV, como já era no passado.

É justa a fama de ser dura com sua equipe nos bastidores? Sou séria. Não me atraso, acho falta de respeito. É por isso que encaro há décadas um programa matinal diário. Não poderia ser diferente. Agora, se fazem cara feia, não consigo segurar. Às vezes, ficam uns dias de bico, e eu vou lá e peço desculpas. Mas deixo claro: em programa ao vivo, todo mundo tem que estar alerta o tempo todo.

Fez inimigos ao longo da carreira? Claro que deve ter quem não goste de mim, mas não é do meu feitio guardar rancor. Outro dia, uma figura que havia feito uma barbaridade comigo lá atrás queria me ver para pedir emprego. Recebi a mulher, ouvi tudo o que ela tinha para falar, mas trabalho, óbvio, eu não dei. Se preciso mandar alguém embora, faço com respeito. Tem gente por aí que manda recado, telegrama, marca reunião. Eu prefiro olhar no olho.

Qual é o ônus de estar tanto tempo no ar? Não saio muito, é complicado ir até o supermercado. Hoje, é meu marido que comanda o dia a dia. A ideia da privacidade se transforma quando se é uma figura pública. Você perde a liberdade.

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Arrepende-se de ter saído da Record batendo boca, em 1999? Não tenho nenhum arrependimento. Estava certa. Fui apenas reivindicar um salário atrasado havia tempos e que fazia falta no meu orçamento. Não fui lá para xingar nem maltratar ninguém. Mas teve a reação inesperada de um bispo, que estava nervoso naquele dia e começou a discutir comigo. Paciência. Garanti o que era meu e fui embora.

Não vejo por que escrever um livro sobre o câncer. Só para ganhar uma grana e virar best-seller? Cada um tem sua vivência, é algo particular. O que passei não faz de mim arauto da doença

Quando Fátima Bernardes saiu do Jornal Nacional, houve especulações de que a Globo queria as duas em um megaprograma na grade matinal, proposta que você teria negado por não querer dividir espaço na atração. A história procede? Como várias especulações que saem sobre mim, isso nunca existiu. Há dias, aliás, em que fico abismada com certas fofocas que circulam no Google. Perdi as contas de quantas vezes me aposentaram da TV. Felizmente, não tenho tempo para ler tanta bobagem.

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Como vê a entrada maciça na televisão de influenciadores que hoje ocupam lugares antes restritos a artistas? Vejo muita coisa superficial e vazia produzida por essa turma, que não acrescenta nada a nossas vidas. É um povinho que está interessado em besteirol, e isso fica repetitivo, cansa. Acredito que os piores acabarão desaparecendo pela total irrelevância. Minha preocupação com a internet, na realidade, é outra: chegar a um público amplo, de diferentes perfis. Não faço TV só para o pessoal que passou dos 50 anos, mas miro da geração Z ao senhor de 90. Falo com 20 milhões de espectadores e, nas redes, já estou em 16 milhões. Tenho taxa de aceitação de 85% entre mulheres de várias taxas etárias.

Usa muito as redes? Sim, mas estou longe de ser aquelas fanáticas que ficam atrás do que dizem nos perfis. Se falarem que não vou ter celular por dois, três dias, não passo ansiedade.

Por que nunca aceitou convites de editoras para relatar sua longa jornada na luta contra o câncer? Se uma pessoa sabe que está com câncer e quer conversar comigo, ouvir o que penso, falo com ela o tempo que for preciso. Não me atrapalha, não me machuca. Às vezes, percebo que consigo transmitir o que aquela pessoa não tem no horizonte: esperança. Mas o que passei não faz de mim arauto do câncer. Não vejo por que me tornar exemplo em livro. Só para ganhar uma grana e virar best-seller? Cada um tem sua vivência, é algo muito particular.

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As cinco experiências com a doença a fizeram refletir sobre a finitude? Não penso na morte, nem mesmo agora, com 77 anos. Enxergo a questão da seguinte forma: sei que tenho mais tempo de vida para trás do que para frente, mas vou viver até os 110. Essa é a minha meta. Isso se a medicina não me der mais uma década.

Envelhecer a assusta? Não, a passagem do tempo, na verdade, anda me ensinando muito inclusive a ser feliz em um casamento com alguém vinte anos mais jovem. Se não tivesse passado pelos erros de relacionamentos anteriores, jamais teria a chance de viver isso agora. Nunca fiz terapia. Vou resolvendo meus problemas comigo mesma.

São comuns os comentários maldosos pela diferença de idade com seu marido? Ao assumir a relação, sabia de todos os perigos que me aguardavam. Eu própria pensava: nossa, ele é tantos séculos mais novo, o que vai acontecer? As más línguas diziam: Olha que ele vai te trair. Tomei todos os cuidados. Aquele negócio de conhecer o cara e casar na mesma hora não estava dando certo. Então fiz diferente, e namoramos por quatro anos, até trocar alianças. A gente se cruzou pelos corredores da Globo usando máscara, na pandemia, e foi coisa de olhar. Estava solteira e até ali sentia que não me viam como mulher, mas como a Ana Maria Braga. Com ele, tudo mudou.

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Sexo na terceira idade é ainda um tabu. Como encara o assunto? A experiência, claro, depende muito do estágio de vida em que cada um se encontra. Se uma mulher com mais de 70 estiver casada com um homem bem mais velho e, provavelmente, já tiver passado da fase dos hormônios a toda, ela tende a se acomodar sem sexo. No meu caso, tenho uma pessoa que me deseja, que gosta de mim, que me toca. E eu me cuido para que ele continue não só me admirando, mas me olhando. Faço reposição hormonal desde antes dos 40, quando tirei o útero e os ovários, após o segundo filho, o que também ajuda a manter a libido.

Chegou a se relacionar com mulheres? Confesso que até fiquei tentada. Uma época, estive tão desacreditada dos homens que parei para pensar: havia tantas mulheres casando entre si que devia ser legal. Mulher é um bicho chato, complicado, e uma entende a outra, inclusive sexualmente. Só não achei ninguém que eu batesse o olho e falasse: bora. Não levo jeito.

Considera-se feminista? Não, sou feminina. Na minha visão, a mulher tem de estar junto do homem e ser respeitada, reconhecida. Tenho meu papel como mãe, esposa e, ao mesmo tempo, como alguém que trabalha e se insere na sociedade de forma ativa. Não significa, porém, que ache os homens inferiores. Acho que, às vezes, as feministas acabam sendo contrárias a um convívio mais saudável.

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Não estaria diminuindo a batalha histórica das mulheres por mais espaço? Não. Só não sou de levantar bandeira e sair por aí gritando. Prefiro trabalhar mais para mudar o cenário.

Recentemente, sua filha, Mariana Maffeis, pediu medida protetiva depois de se separar do marido, com quem dizia ter relação abusiva. Chegou a presenciar algo que a incomodou na relação dos dois? Não. Na minha relação com meus dois filhos, sempre disse e eles sabem: cada um é responsável por seus atos. Não sou de interferir. Aquela não é minha casa, não é minha vida. As decisões sobre como ela lida com o marido, com os filhos, são dela. Não me cabe palpitar.

Vejo muita coisa superficial e vazia produzida por influenciadores. É um povinho que está interessado em besteirol, e isso cansa. Acredito que os piores acabarão desaparecendo

Já fez aborto? Nunca falei disso, mas, sim, fiz e foi péssimo. Não recomendo. Embora não fosse muito nova, naquele momento da vida ainda nem conseguia me sustentar direito e achava que não tinha outro caminho. Não guardo culpa.

É a favor da legalização do aborto? Sim. A decisão deve sempre ser da mulher. Ela é quem sabe do próprio corpo. Sou defensora da liberdade individual. É a mulher, com a consciência dela, que deve decidir o que fazer com o ser que está gerando.

Como é sua relação com as drogas? Nunca deu certo. Experimentei uma vez maconha, rapaz. Vomitei até a minha alma, nunca mais. Ainda me deu uma fome desgraçada depois. Só de sentir o cheiro… não me faz bem.

A morte repentina de Tom Veiga (que fazia a voz do papagaio Louro José), em 2020, ainda lhe traz dor? Dois dias antes de morrer, na pandemia, ele estava comigo, fazendo o programa de casa. Era um irmão, filho, parceiro, amigo. Foi uma das maiores perdas da minha vida. Até hoje não consigo falar dele.

Está nos planos parar de trabalhar? Já sou até aposentada. Ganho do governo, tenho direito, né? Já trabalhei muito de carteira assinada. Mas parar mesmo, não quero, não. O que seria da minha vida se deixasse de fazer o que eu faço? Vou para onde? Adoro a fazenda, mas aí mato um porco, cuido de planta, leio três livros e faço mais o quê? Não sirvo para ficar em casa, enlouqueço todo mundo. Vivo de aplausos.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2026, edição nº 3017

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Fonte: veja.abril.com.br

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